10.12.11

930. Fácil

É mais fácil trocar de religião do que de café.

Georges Courteline

9.12.11

929. Banalidade e hábito

Pois o homem é feito de banalidade,

E nomeia o hábito sua ama.

Friedrich von Schiller

8.12.11

928. A segunda natureza

O hábito é uma segunda natureza, que nos impede de conhecer a primeira, da qual não possui nem as crueldades nem os encantos.

Marcel Proust

6.12.11

926. O hábito pode salvar sua vida

Ninguém deve dizer adeus aos próprios hábitos. Muitos suicidas se detiveram ni limiar da morte ao pensar aonde vão jogar todas as noites sua partida de dominó.

Honoré de Balzac

4.12.11

924. Hábito

Não há nada de tão absurdo que o hábito não torne aceitável.

Erasmo de Roterdã

3.12.11

923. Uniforme

É o uniforme que faz esquecer aquele que o veste.

Enzo Biagi

2.12.11

922. A cada qual o seu

Para aqueles que não são capazes de crer, existem os ritos; para aqueles que não são capazes de inspirar respeito por si mesmos, existe a etiqueta; para aqueles que não sabem se vestir, existe a moda; para aqueles que não sabem criar, exis­tem as convenções e os clichês. É por isso que os burocratas amam os cerimoniais; os padres, os ritos; os pequeno-burgueses, as conveniências sociais; os galanteadores, a moda; e os atores, as convenções teatrais, os estereótipos e um inteiro ritual de ações cênicas.

Stanislavski

1.12.11

921. A irmã da moda

Moda: – Sou a moda, tua irmã.

Morte: – Minha irmã?

Moda: – Não te lembras de que nós duas nascemos da Caducidade?

Giacomo Leopardi

29.11.11

920. Assim falou Paulo Francis (10 de 10): Mal de Alzheimer

As manchetes sensacionais sobre AIDS escon­dem o lato de que a mais séria epidemia do nosso tempo é outra. É a doença de Alzheimer. Destrói as células do cérebro, eliminando a memória e a coerência. Há no momento cerca de 2 milhões de pacientes registrados nos EUA pelo Centro de Controle de Doenças de Atlanta. A AIDS matou cerca de 30 mil pessoas nos EUA em 1995. Alzheimer, cerca de 5 milhões, desde que foi identificada, na pala­vra do Centro. Como de costume, os médicos não têm a menor ideia das causas de Alzheimer. Sabem que dá muito em gente de uma certa idade. A vítima se torna débil mental. Tem de ser tratada como criança e, ao mesmo tempo, tendo perdido a memória, nem ao menos estabelece a ponte de contato humano com quem a trata.

28.11.11

919. Assim falou Paulo Francis (9 de 10): sobre Woody Allen–parte 2

Crimes e pecados é o filme europeu que eu e muitos outros disse­mos que Woody nunca faria. É sofisticado sem ser pomposo. A vontade é cantar como Cole Porter, "You're the top"...

27.11.11

918. Assim falou Paulo Francis (8 de 10): sobre Edward Albee–parte 2

Há momentos em Três mulheres altas em que a conversa tem a variedade, a melodia, o sentimento de um terceto de Mozart. Essa capacidade feminina de sentir tudo e todos é o que de mais invejável tem a mulher. Albee, o autor de Quem tem medo de Virgínia Woolf?, 1962, renasceu em Três mulheres altas. Salve. Passou 32 anos no deserto.

26.11.11

917. Assim falou Paulo Francis (7 de 10): sobre Woody Allen

A gravitas europeia a que Woody Allen aspirava "em seus malsucedidos filmes como Interiores, Interiors, Setembro, September, e o chatérrimo A outra, Another woman, é obtida plena­mente em Crimes e pecados, Crimes and misdemeanors. E o seu filme mais sombrio, mas ele encontrou o tom certo, não aquele lúgubre à Bergman que nos deixa um gosto ruim na boca. O horren­do no filme não é portentoso e literário, mas engraçado, espirituo­so, e as ambivalências são quase sempre sutis.

25.11.11

916. Assim falou Paulo Francis (6 de 10): sobre Edward Albee

Três mulheres altas, de Edward Albee, é a melhor peça sobre mulheres desde As troianas, de Eurípides. E uma medi­tação lírico-filosófica sobre a mulher, em que dinheiro, sexo, rivali­dades, ciúmes, ganância, generosidade, falência física se misturam.

24.11.11

915. Assim falou Paulo Francis (5 de 10): AIDS

O flagelo da AIDS foi um dilúvio na fervura dos ativistas. São terríveis as lembranças que evoca. Afinal, as três maiores religiões do mundo, cristianismo, judaísmo e islamismo, condenam explicitamente a atividade homossexual. A medicina séria, idem. Freud, que pouco escreveu sobre o assunto a não ser em cartas, tratou com a maior cortesia e delicadeza o problema homossexual, consideran­do-o uma das aberrações "normais" entre os seres humanos e propôs para os homossexuais o mesmo que para os heterossexuais: uma maneira de eles sofrerem menos. AIDS foi o estigma na década de 1980. Talvez seja irremovível. Mas pelo menos podemos começar os anos 90 encarando o assunto sem o sensacionalismo vulgar da mídia e sem as balelas fantasiosas dos ideólogos homossexuais. AIDS já traz um sofrimento tão horrível que pode dispensar essa sobrecarga retórica. Que tantos jovens tenham sido ceifados é uma tragédia de proporções não muito diferentes das mortes da juventu­de na Primeira Guerra Mundial, quando um segundo-tenente tinha prazo de vida previsto de três semanas

23.11.11

914. Assim falou Paulo Francis (4 de 10): AI-5

A agitação dos estudantes, intelectuais e artistas e de grandes liberais como Sobral Pinto foi o pretexto para o AI-5. Duvido que alguém no alto comando acreditasse que o Brasil estivesse à beira de um putsch, ou revolução comunista. Porque não estava. Nem de leve. Mas na reunião de governo que deu no AI-5 se sente o bafo forte das bases, do oficialato de médio escalão, que é uma gente pouco familiarizada com a vida civil, que queria ser "gosta­da", mas era ridicularizada nos jornais, que se assustava com a mídia. Duvido de que Costa e Silva quisesse fazer o A1-5. Foi força­do pela pressão desses oficiais.

22.11.11

913. Assim falou Paulo Francis (3 de 10): África do Sul

De Klerk e todo mundo diz que o ou "a" apartheid é uma chaga na nossa civilização. Waaal, moralmente é. Não se devem segregar as pessoas racialmente. Mas com toda a franqueza eu não quero que os crioulos tomem o poder na África do Sul. Ninguém ciente das condições do país quer, mas as patrulhas impe­dem que essas pessoas "iluminadas" falem. Porque não há, em pri­meiro lugar, negros, essa generalização sem sentido algum e sem individualizar ninguém. Há negros de diversas tribos que se odeiam e que, uma vez no controle do país, entrariam em guerra civil inter­minável, como os zulus, por exemplo, matando, certamente, muito mais gente do que os afrikaners mataram em séculos. Uma boa cho­radeira sobre o destino cruel de Nelson Mandela sempre rende aplausos fáceis. Mas eu me lembro dele solto (uma das raras vanta­gens de se ser de uma certa idade) e que queria estabelecer o marxismo-leninismo, vulgo stalinismo, na África do Sul. Nem de longe é o líder dos quase 20 milhões de negros do país. É o líder de uma das muitas facções, da tribo shosha. Gente admirável como o arce­bispo Tutu, que faz o que pode para conter a violência tribal, não sobreviveria a uma luta pelo poder entre Mandela, zulus etc., por­que, já dizia Mão Tsé-tung, o poder nasce do coldre de um revólver. Sou racista por isso? Sou favorável a uma gradual imersão dos negros na vida política da África do Sul e acho que devem ter todos os direitos, o que inclui a oportunidade de se tornarem mão-de-obra qualificada e ganhar direito de tomarem o poder. Talvez se devam criar câmaras municipais para eles, como foram criadas para os indianos (a quem os revolucionários negros querem matar). Eu disse claramente o que pensava dos afrikaners, a eles próprios, em conversas em “Jo’Burg”, como chama a cidade mais civilizada do país (Johannesburg), mas fui forçado a reconhecer as realidades de poder acima. Há situações para que simplesmente não exista uma solução clara e sentimentalmente satisfatória.

21.11.11

912. Assim falou Paulo Francis (2 de 10): Henry Adams

Sempre que levo um banho de vulgaridade na rua, leio algumas páginas de A educação de Henry Adams. Como todos os autores echt, Adams parece estar falando exclusivamente para quem o lê. Estou ainda por encontrar um americano, exceto intelectuais, que saiba que Henry Adams existiu sequer. Seu senso de humor seco, sua neurastenia, a agudeza com que descreve a vul­garização fútil e progressiva que veio na esteira do voto às camadas populares.

20.11.11

911. Assim falou Paulo Francis (1/10): Aborto

Li o artigo de Amanda Craig no Spectator inglês, um mar­co jornalístico, descrevendo um aborto legal na Inglaterra (desde 1967), a indiferença plácida do médico, sempre chamado curiosa­mente por Amanda de "mr." e não de "dr.", que diz ser contra o aborto, em princípio, e que desaconselha as grávidas, mas que acha um mal menor, porque a maioria das pacientes é jovem demais, dro­gada demais e pobre demais. Diz o "mr." que entre 25% e 30% dos médicos na Inglaterra são contra o aborto. As mulheres a favor acu­sam Amanda Craig de ser católica. As descrições dos pedaços do feto saindo da mulher são lancinantes, apesar de não adjetivadas (talvez por isso sejam tão fortes). A antiaborto quase grita que Amanda escreve que feto de seis meses não grita, mas que ela, a antiaborto, perdeu um feto de seis meses, por aborto involuntário, e que o leio, aos seis meses, pegava na mão dela. Assunto em que homem não pia, obviamente, o aborto, mediante o cumprimento de certas condições. A princípio, eu achava questão líquida em favor do aborto. Como muitas deduções tiradas de abstrações intelectuais, a experiência foi modificando essa posição. Sempre achei que os religiosos antiaborto querem controlar a vida sexual das mulheres e não vejo motivo para mudar de opinião. Mas ao mesmo tempo o descaso com que engravidam e "despacham" fetos para o além, o que quer que seja o além, me cansa um certo asco. Um milhão e meio de abortos por ano. É demais. O aborto pode ser, e muitas vezes é, talvez, necessário, mas é degradante. Que sorte bnão ser mulher.