6.8.10

473. Do Livro do Desassossego - III

O sonhador não é superior ao homem ativo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação.

Fernando Pessoa

5.8.10

472. Do Livro do Desassossego - II

Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar.

Fernando Pessoa

4.8.10

471. Do Livro do Desassossego - I

Pesa-me, aliás, toda a ideia de ser forçado a um contacto com outrem. Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia dificil de definir. A ideia de uma obrigação social qualquer — ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida —, só essa ideia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender.

Fernando Pessoa

3.8.10

470. A procriação como ambição de imortalidade

DIOTIMA: Qual é, Sócrates, na sua opinião, a causa deste amor, deste desejo? Você já observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando são tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possuídos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necessário alimentar os filhos? [...] Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do possível, perpetuar-se. Apenas desse modo, por meio da procriação, a natureza mortal é capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [...] Pois saiba, Sócrates, que o mesmo vale para a mibição dos homens. Você ficará assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a não ser que compreenda o que eu disse, e reflita o que se passa com eles quando são tomados pela ambição e pelo desejo da glória eterna. É pela fama, mais ainda que por seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos, suportar fadigas e até mesmo sacrificar suas vidas. [...] Aqueles cujo instinto criador é físico recorrem de preferência às mulheres e revelam seu amor dessa maneira, acreditando que pela geração de filhos podem se assegurar da imortalidade e de uma recordação perene de si. Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz. E o que é próprio da natureza da alma procriar? A sabedoria e as virtudes em geral, cujos progenitores são os poetas e os criadores fecundos.

Platão

2.8.10

469. 1=10.000

Para mim, um único homem é dez mil se ele for o melhor.

Heráclito de Éfeso

1.8.10

468. Fama

A fama é a quintessência dos mal-entendidos que se juntam a um nome.

Rilke

31.7.10

467. A palavra escrita e os mal-entendidos

Sócrates: Você sabe, Fedro, esta é a singularidade do escrever, que o torna verdadeiramente análogo ao pintar. As obras de um pintor mostram-se a nós como se estivessem vivas; mas, se as questionamos, elas mantêm o mais altivo silêncio. O mesmo se dá com as palavras escritas: parecem falar conosco como se fossem inteligentes, mas, se lhes perguntamos qualquer coisa com respeito ao que dizem, por desejarmos ser instruídos, elas continuam para sempre a nos dizer exatamente a mesma coisa. E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como dirigir-se às pessoas certas e não se dirigir às erradas. E, quando é maltratada ou injustamente ultrajada, precisa sempre que seu pai lhe venha em socorro, sendo incapaz de defender-se ou cuidar de si mesma.

Platão

30.7.10

466. A filosofia como batalha

A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento da nossa inteligência por meio da linguagem.

Ludwig Wittgenstein

29.7.10

465. Das palavras

As palavras pertencem metade a quem fala, metade a quem ouve.

Montaigne

28.7.10

464. O excesso de leitura

Existem dois modos distintos de ler os autores: um deles é muito bom e útil, o outro, inútil e até mesmo perigoso. É muito útil ler quando se medita sobre o que é lido; quando se procura, pelo esforço da mente, resolver as questões que os títulos dos capítulos propõem, mesmo antes de se começar a lê-los; quando se ordenam e comparam as ideias umas com as outras; em suma, quando se usa a razão. Ao contrário, é inútil ler quando não entendemos o que lemos, e perigoso ler e formar concei­tos daquilo que lemos quando não examinamos suficientemente o que foi lido para julgar com cuidado, sobretudo se temos memória bastante para reter os conceitos firmados e imprudência bastante para concordai com eles. O primeiro modo de ler ilumina e fortifica a mente, aumen tando o seu entendimento. O segundo diminui o entendimento e gra­dualmente o torna fraco, obscuro e confuso. Ocorre que a maior parle daqueles que se vangloriam de conhecer as opiniões dos outros estucl;i apenas do segundo modo. Quanto mais lêem, portanto, mais fracas e mais confusas se tornam suas mentes.

Malebranche

27.7.10

463. Como ler

Leia não para contradizer nem para acreditar, mas para ponderar e considerar. Alguns livros são para serem degustados, outros para serem mastigados e digeridos. A leitura torna o homem completo, as preleções dão a ele a prontidão, e a escrita torna-o exato.

Francis Bacon

26.7.10

462. A mania de citar

Não importa qual fosse o livro que eu estivesse lendo, adquiri o hábito de anotar por escrito sentenças isoladas ou passagens curtas que me parecessem dignas de atenção. Fazia isso tendo em vista o meu próprio uso ou para simples desfrute, como dizem os advogados, sem intenção alguma de publicar. Até que mais recentemente me ocorreu pelo menos uma parte dessas citações — já na casa dos milhares - poderia despertar o interesse de outras pessoas. Daí este livro.

Viscount Samuel

25.7.10

461. Da inutilidade dos prefácios

Um livro que ninguém espera, que não responde a nenhuma pergunta formulada, que o autor não teria escrito se tivesse seguido a sua lição ao pé da letra, eis enfim a excentricidade que hoje proponho ao leitor.

George Bataille

24.7.10

460. Millôr e a adivinhação

Amanhã vai ser um dia esplêndido, mas não sei se melhor do que ontem
- como dizia o adivinho desmemoriado.

23.7.10

22.7.10

458. Millôr e a permissividade

Não é em tudo que estou de acordo com a juventude. Agora, essa permissividade, essa revolução sexual, não sei não, mas é uma coisa que
me interessa muito.

21.7.10

457. Millôr e a aderência

Você pode ser a favor de todas as pessoas algum tempo. Você pode ser a favor de algumas pessoas todo o tempo. Mas você não pode ser a fa­vor de todas as pessoas todo o tempo.

20.7.10

456. Millôr, Deus e a corrupção

Está bem. Deus é brasileiro. Mas pra defender o Brasil de tanta corrup­ção só colocando Deus no gol.

19.7.10

455. Millôr e a riqueza

Só no dia em que começaram a pagar bem pelo que eu escrevia come­cei a aceitar que era rico de ideias. Bem, rico não, remediado de idei­as.

18.7.10

454. Millôr e a ação

Chegar, fazer, completar - isso é que é conseguir. Nada é maior do que a infinitude, não é mesmo?, assim como nada é menor do que o critério com que medimos nossa própria insignificância. Explicando melhor; agora não é antes nem depois, da mesma forma como o ontem nunca será amanhã, embora bastem 48 horas pra que o amanhã seja ontem. Como diria Maricá - só com a ação se escapa da inércia.