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2.4.12

1017. Inside

Como é por dentro uma pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, com que não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma senão da nossa; as dos outros são olhares, são gestos, são palavras, com a suposição de qualquer semelhança ao fundo.

Fernando Pessoa

15.10.11

878. Inteiro

Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.

Fernando Pessoa

8.10.10

535. Do Livro do Desassossego - XXXV

Consoladora dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa — livra-me da alegria e da felicidade.

Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono - faze com que eu seja odiado pelos homens e escarnecido pelas mulheres.

Címbalo de Extrema-Unção, Carícia sem gesto, Pomba morta à sombra, Óleo de horas passadas a sonhar — livra-me da religião, porque é suave; e da descrença, porque é forte.

Lírio fanando à tarde, Cofre de rosas murchas, silêncio entre prece e prece – emche-me de nojo de viver, de ódio de ser são, de desprezo por ser jovem.

Torna-me inútil e estéril, ó Acolhedora de todos os sonhos vagos; faze-me puro sem razão para o ser, e falso sem amor a sê-lo, ó Água Corrente das Tristezas Vividas; que a minha boca seja uma paisagem de gelos, os meus olhos dois lagos mortos, os meus gestos um esfolhar lento de árvores velhinhas – ó Ladainhade Desassossegos, ó Missa-Roxa de Cansaços, ó Corola, ó Fluido, ó Ascensão!…

Que pena eu ter de rezar como a uma mulher, e não te querer como a um homem, e não te poder erguer os olhos do meu sonho como Aurora-ao-contrário do sexo irreal dos anjos que nunca entraram no céu!

Fernando Pessoa, Nossa Senhora do Silêncio

7.10.10

534. Do Livro do Desassossego - XXXIV

Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta ávida.

A vida é pois um intervalo, um nexo, uma relação, mas uma relação entre o que passou e o que passará, intervalo morto entre a Morte e a Morte.

Fernando Pessoa

6.10.10

533. Do Livro do Desassossego - XXXIII

Somos todos mortais, com uma duração justa. Nunca maior ou menor, Alguns morrem logo que morrem, outros vivem um pouco, na memória dos que os viram e amaram; outros, ficam na memória da nação que os teve; alguns alcançam a memória da civilização que os possuiu; raros abrangem, de lado a lado, o lapso contrário de civilizações diferentes.

Fernando Pessoa

5.10.10

532. Do Livro do Desassossego - XXXII

Dar bons conselhos é insultar a faculdade de errar que Deus deu aos outros.

Fernando Pessoa

4.10.10

20.9.10

517. Do Livro do Desassossego - XXVII

Criar ao menos um pessimismo novo, uma nova negação, para que tivéssemos a ilusão que de nós alguma coisa, ainda que para mal, ficava!

Fernando Pessoa

19.9.10

516. Do Livro do Desassossego–XXVI

No momento em que sofremos, parece que a dor humana é infinita. Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais que ser uma dor que nós temos.

Fernando Pessoa

18.9.10

515. Do Livro do Desassossego - XXV

Em qualquer espírito, que não seja disforme, existe a crença em Deus. Em qualquer espírito, que não seja disforme, não existo crença em um Deus definido. É qualquer ente, existente e impossível, que rege tudo; cuja pessoa, se a tem, ninguém pode definir; cujos fins, se deles usa, ninguém pode compreender. Chamando-lhe Deus dizemos tudo, porque, não tendo a palavra Deus sentido algum preciso, assim o afirmamos sem dizer nada. Os atributos de infinito, de eterno, de omnipotente, de sumamente justo ou bondoso, que por vezes lhe colamos, descolam-se por si como todos os adjetivos desnecessários quando o substantivo basta. E Ele, a que, por indefinido, não podemos dar atributos, é, por isso mesmo, o substantivo absoluto.

Fernando Pessoa

16.9.10

513. Do Livro do Desassossego - XXIII

O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada tanto quanto possível, dos interesses alheios.

Fernando Pessoa

15.9.10

512. Do Livro do Desassossego - XXII

Reparo, também, que entre a vida dos homens e a dos animais não há outra diferença que não a da maneira como se enganam ou a ignoram. Não sabem os animais o que fazem: nascem, crescem, vivem, morrem sem pensamento, reflexo ou verdadeiramente futuro. Quantos homens, porém, vivem de modo diferente do dos animais? Dormimos todos, e a diferença está só nos sonhos, e no grau de qualidade de sonhar. Talvez a morte nos desperte, mas a isso também não há resposta senão a da fé, para quem crer é ter, a da esperança, para quem desejar é possuir, a da caridade, para quem dar é receber.

Fernando Pessoa

14.9.10

511. Do Livro do Desassossego - XXI

O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados… As coisas do sonho só têm o lado que vemos.

Fernando Pessoa

3.9.10

500. Do Livro do Desassosssego - XX

Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou ativar uma invenção, criar coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com o sonhar os gestos que desejaria poder fazer.

Fernando Pessoa

1.9.10

498. Do Livro do Desassossego - XVIII

Nunca se deve invejar a riqueza, senão platonicamente; a riqueza é liberdade.

Fernando Pessoa

31.8.10

497. Do Livro do Desassossego - XVII

Tu, que me ouves e mal me escutas, não sabes o que é esta tragédia! Perder pai e mãe, não atingir a glória nem a felicidade, não ter um amigo nem um amor – tudo isso se pode suportar; o que se não pode suportar é sonhar uma coisa bela que não seja possível conseguir em ato ou palavras.

Fernando Pessoa

30.8.10