19.8.10

485. A sorte e nossas ações

Julgo poder ser verdadeiro o fato de a sorte ser árbitro de metade de nossas ações, mas que, mesmo assim, ela nos permite governar a outra metade ou parte dela.

Maquiavel

18.8.10

484. A ocasião

A ocasião não faz apenas o ladrão, mas também “grandes homens”.

G. Ch. Lichtenberg

17.8.10

483. De “O náufrago”, de Thomas Bernhard - III

Por toda a parte, as pessoas se comportam de maneira hipócrita ao dizer que sentem vergonha do dinheiro que têm e que os outros não têm, quando é afinal da natureza das coisas que uns tenham dinheiro e outros, não, ora são uns, ora outros os que têm, isso não vai mudar, e os que têm não têm culpa de ter dinheiro, assim como os outros tampouco têm culpa de não ter etc., pensei, o que, no entanto, não é compreendido por nenhuma das partes, porque em última instância elas só conhecem a hipocrisia e nada mais.

16.8.10

482. De “O náufrago”, de Thomas Bernhard - II

O chamado intelectual odeia seu intelectualismo e acredita que vai encontrar sua salvação entre os chamados pobres e desfavorecidos, que antes eram chamados de oprimidos e injuriados, ele disse; em vez de sua salvação, o que ele encontra é a mesma crueldade, disse, pensei.

15.8.10

481. De “O náufrago”, de Thomas Bernhard - I

Temos que saber desde o princípio o que queremos, pensei; desde criança o homem precisa ter claro na cabeça o que quer, o que quer ter, o que precisa ter, pensei.

14.8.10

480. Do Livro do Desassossego - X

Todo o dia, em toda a sua desolação de nuvens leves e mornas foi ocupado pelas informações de que havia revolução. Estas notícias, falsas os certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desdém e de náusea física. Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucionários são estúpidos, como, em grau menor, porque menos incómodo, todos os reformadores.

Fernando Pessoa

12.8.10

479. Do Livro do Desassossego - IX

O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente.

Fernando Pessoa

10.8.10

477. Do Livro do Desassossego - VII

Quanto mais alto o homem, de mais coisas tem que se privar. No píncaro não há lugar senão para o homem só. Quanto mais perfeito, mais completo; e quanto mais completo, menos outrem.

Fernando Pessoa

8.8.10

475. Do Livro do Desassossego - V

Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo em constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.

Fernando Pessoa

7.8.10

474. Do Livro do Desassossego - IV

Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra.

Fernando Pessoa

6.8.10

473. Do Livro do Desassossego - III

O sonhador não é superior ao homem ativo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação.

Fernando Pessoa

5.8.10

472. Do Livro do Desassossego - II

Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho, porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar.

Fernando Pessoa

4.8.10

471. Do Livro do Desassossego - I

Pesa-me, aliás, toda a ideia de ser forçado a um contacto com outrem. Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia dificil de definir. A ideia de uma obrigação social qualquer — ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida —, só essa ideia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender.

Fernando Pessoa

3.8.10

470. A procriação como ambição de imortalidade

DIOTIMA: Qual é, Sócrates, na sua opinião, a causa deste amor, deste desejo? Você já observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando são tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possuídos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necessário alimentar os filhos? [...] Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do possível, perpetuar-se. Apenas desse modo, por meio da procriação, a natureza mortal é capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [...] Pois saiba, Sócrates, que o mesmo vale para a mibição dos homens. Você ficará assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a não ser que compreenda o que eu disse, e reflita o que se passa com eles quando são tomados pela ambição e pelo desejo da glória eterna. É pela fama, mais ainda que por seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos, suportar fadigas e até mesmo sacrificar suas vidas. [...] Aqueles cujo instinto criador é físico recorrem de preferência às mulheres e revelam seu amor dessa maneira, acreditando que pela geração de filhos podem se assegurar da imortalidade e de uma recordação perene de si. Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz. E o que é próprio da natureza da alma procriar? A sabedoria e as virtudes em geral, cujos progenitores são os poetas e os criadores fecundos.

Platão

2.8.10

469. 1=10.000

Para mim, um único homem é dez mil se ele for o melhor.

Heráclito de Éfeso

1.8.10

468. Fama

A fama é a quintessência dos mal-entendidos que se juntam a um nome.

Rilke

31.7.10

467. A palavra escrita e os mal-entendidos

Sócrates: Você sabe, Fedro, esta é a singularidade do escrever, que o torna verdadeiramente análogo ao pintar. As obras de um pintor mostram-se a nós como se estivessem vivas; mas, se as questionamos, elas mantêm o mais altivo silêncio. O mesmo se dá com as palavras escritas: parecem falar conosco como se fossem inteligentes, mas, se lhes perguntamos qualquer coisa com respeito ao que dizem, por desejarmos ser instruídos, elas continuam para sempre a nos dizer exatamente a mesma coisa. E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como dirigir-se às pessoas certas e não se dirigir às erradas. E, quando é maltratada ou injustamente ultrajada, precisa sempre que seu pai lhe venha em socorro, sendo incapaz de defender-se ou cuidar de si mesma.

Platão

30.7.10

466. A filosofia como batalha

A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento da nossa inteligência por meio da linguagem.

Ludwig Wittgenstein